terça-feira, 26 de abril de 2011

Ep.3

CENAS DOS ÚLTIMOS EPISÓDIOS:

Eu sorri, enquanto ela saía do carro e entrava em casa. Pus o rádio leitor de cd's aos berros, com o meu cd dos Red Hot Chili Peppers a dar. A música era Dani California, e cantei-a alto, bem alto.

Ep.3

      Acordei, de manhã. Disse ao espelho o mesmo que digo todas as manhãs: "Mais um dia de merda!", mas completei "bem, hoje vai ser melhor que a média. Jantar com a Sara logo.". Tomei um banho e aperaltei-me com uma t-shirt roxa que dizia "Music and Photography", umas calças de ganga azuis claras e uns ténis Adidas Gazelle azuis. Olhei-me outra vez ao espelho e pensei "Não será mais um dia de merda." e ri-me.
     Habitualmente o meu pequeno almoço era ar. Não tomava pequeno almoço em casa, preferia tomá-lo no bar do jornal, onde convivia com as minhas colegas a ver se engatava alguma. Mas depois de conhecer a Sara que tomo sempre o pequeno almoço em casa. Leite com café e um pão misto, às vezes dois pães. Atraso-me sempre, por isso maior parte dos pequenos-almoços são tomados no carro à ida para a redacção do Páginas Brancas. Então, concluindo esta minha descrição do início da manhã, corri para o meu Renault Clio e pus-me a andar para o trabalho.
     Mal cheguei ouvi logo o meu nome. Era o maldito director do jornal, o dr. Álvaro:
     - Reportagem no porto marítimo. Foi apreendido um barco cheio de drogas. Ouviste? Rápido!
     Eu nem tive tempo de responder. Fui às escondidas à máquina do café tirar um expresso, que sabe sempre bem pela manhã, e então fui trabalhar.
     Cheguei lá ao sitiozinho que o chefe me mandou e estava já o habitual ambiente montado: centenas de curiosos e curiosas que, sem nada para fazer da vida - reformados provavelmente - vão lá bisbilhotar. E, como sempre, é complicado fotografar um local de crime com centenas de olhos sobre mim. Lá tive de aguentar os olhares e trabalhar. Ao menos havia um ambiente engraçado: como era perto do mar, havia nas proximidades algumas peixeiras a tentar fazer algum dinheiro com os peixes que os maridos pescavam. As tais mulheres que se apresentavam não muito agradavelmente, com o seu avental de peixeira, faziam-me rir bastante com o seu apregoar:
     - Chó, olhó peixinho fresco, acabadinho de pescar. É pescada, é dourada, é marmotinha! É só qualidade ó dona!
     Isso e as habituais fofocas que havia sempre quando se juntavam em grupo:
     - Sabem daquela pexeira que costumava ter aqui banca? O marido, aquele que costumava ajudar o meu marido a pescar, pôs-lhe os cornos. Por isso é que ela nunca mais cá apareceu! Coitada. Bem teve o que merecia, se calhar ela não lhe dava a ele o que ele queria.
     Enfim, más línguas. E eu só me ria com aquilo. Mas a hora é de trabalhar. Tirei fotografia à "exposição" que as autoridades fizeram com o material apreendido e fui-me embora.
     Cheguei ao escritório e ia falar com o chefe com toda a pressa, mas antes de chegar ao escritório dele abrandei o passo. Ouvi a voz da Sara e pensei "que raio está aqui ela a fazer?". Espreitei pela porta e vi que era mesmo ela. Perguntei à secretária do dr. Álvaro quem estava lá com ele, e a resposta foi:
     - Ah, é a filha dele, a Sara.
Caiu-me o mundo em cima. A mulher que mais amo é filha do homem que mais odeio.
Ouvi a porta abrir-se. Alguém vai sair. Será a Sara? Ou será o chefe? Como é que vou reagir?

     CONTINUA.

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