quarta-feira, 16 de março de 2011

História Sem Título Ep.1

      Conheci uma rapariga. Ouve, a sério que conheci. Chama-se Sara e é só 2 anos mais nova que eu, tem 22. Ela é simpática, é querida. É alta, é loira de olhos azuis que hipnotizam.
      Já faz um mês que tivemos o nosso primeiro encontro e acho que estamos os dois interessados um no outro. Até já nos beijá-mos! Desde o dia do beijo que temos saído todos os dias, temos ido sempre ao mesmo bar, depois do jantar. Somos clientes habituais do Pastilha Elástica, na esquina da Rua n.º 5 com a Avenida da Liberdade. É um bar com bom ambiente, passam boas músicas lá. Da última vez que me lembro, estava na habitual mesa do canto do bar com a Sara e estava a passar lá muito no fundo a Basket Case dos Green Day. Sempre foi uma música de que gostei muito, e agora gosto ainda mais.
      Desde o primeiro dia que conheci a Sara que houve logo alguma coisa que me atraíu nela. Talvez os seus magníficos cabelos dourados debaixo da luz ambiente do Pastilha Elástica, não sei. Mas não me vou esquecer desse dia, nunca:
      - Posso sentar-me? - disse eu, enquanto me aproximava do balcão do bar.
      - Claro que sim - disse-me ela, com uma voz que me encantou logo na primeira palavra.
      - Posso perguntar-lhe a sua bebida preferida? - perguntei eu, com a intenção de lhe pagar uma bebida.
      Perguntas e respostas se sucederam depois de lhe ter pago um Martini. Ela agradeceu-me insistentemente, e disse-me à saída do Pastilha que não se divertia assim há algum tempo. Naquele momento nada me interessava, só pensava que tinha conhecido uma miúda que, à partida, seria "areia a mais para a minha camioneta". Fiquei tão confiante e a pensar nisso que me esqueci de lhe pedir o número de telemóvel ou de combinar outra noite como aquela. Cheguei ao meu prédio, e tentei abrir a porta com uma cabeçada. Como é que me fui esquecer de lhe pedir o número? Tentei ignorar essa minha idiotice e fui dormir, com a ideia que a dormir não faço mais nada estúpido.
      Dia seguinte, mais um dia de trabalho. Nem sempre gostei de trabalhar na redacção do jornal. No início não era bom, ficava só com notícias pouco relevantes. Mas agora, sou fotojornalista das notícias que fazem manchete no Páginas Brancas. E que orgulho que é ter uma fotografia minha na primeira página! Tudo perfeito na redacção, excepto uma coisa: o cabrão do meu chefe. O fundador do Páginas Brancas era um homem alto, com bigode e óculos, nariz grande que lhe ocupava meia cara. Licensiado em jornalismo - ou alguma coisa parecida - o Dr. Álvaro era sempre um homem carrancudo, nunca se ria. Ficava sempre fechado no seu escritório de chefe. Só saía para dar trabalho:
      - Preciso de um fotógrafo e de um jornalista para um homicídio na Rua n.º 5!
Que alívio, sair daquele escritório para fazer alguma coisa realmente importante: fotografar. Ainda por cima um homicídio. Adrenalina de cadáveres. Vamos embora!
Cheguei à vivenda Vista Alegre na Rua n.º 5 e deparei-me logo com a algazarra do costume: carros de polícia e fitas amarelas a bloquear o acesso das pessoas ao local do crime. Impressionava-me que as pessoas atrás daquelas fitas eram sempre as mesmas coscovilheiras das ruas, que comentavam constantemente a vida dos outros. Mas enfim, nada a que não esteja já habituado.
      Foi-me dito que os agentes da brigada de homicídios não me deixavam fotografar o corpo. Nem estava à espera de o fotografar, só queria fotografar o responsável, mas visto que estavam a trabalhar lá no morto, foi uma saída inútil. Sempre foi melhor que estar a olhar para a cara do meu chefe, que às vezes até metia medo.
      Olho para o relógio e vi que já não valia a pena voltar ao escritório. Lembrei-me que estava na Rua n.º 5 e corri até à esquina com a Avenida da Liberdade. Lá estava o bendito bar. Letras amarelas diziam Pastilha Elástica Bar. A cor das letras fez-me lembrar a cor dos cabelos da Sara.

Continua.

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